
Quer dizer, gostar de você não é fácil. É como gostar de uma parede, ou
de uma pedra. Na verdade, seria mais fácil gostar delas. Não que você
seja sem emoção ou sem coração. Mas eu sei que você e eu não prestamos
juntos. Veja, eu não sei nem usar um termo “nós”. Porque pra ser
sincera, nunca existiu nada demais entre a gente. E ainda assim, sempre
que você vai embora, é como se tivesse tudo acabado. Mas o que acabou?
Como eu posso sentir que tudo que a gente tinha se perdeu, se a gente
nunca teve nada? O que a gente sente não é amor. É anti-amor. É
anti-amor por nada. Porque não adianta eu sentir que acabou, se não
existe nada pra acabar. Você é uma porcaria. Literalmente. Daquelas que a
mãe da gente diz que dão cárie. Você é a pior pessoa do mundo, de todas
as formas possíveis. Suas escolhas são ruins, seus pensamentos são
horríveis e suas atitudes são todas erradas. Você não tem rumo certo. E
deve ser por isso que eu morro de medo de andar atrás de você. De tentar
acompanhar o que eu sei que não tem caminho. Eu nem sei se você sente o
mesmo medo que eu. Eu não sei nada sobre o que você sente. Mas tenho
medo de perguntar, porque você sempre me surpreendeu. E eu sempre odiei
surpresas. É claro que você pode sentir o mesmo. Ou até mais. Mas eu
conheço bem você. E sei que você se esconde quando a coisa fica feia. E
olha bem pra gente. Olha bem pra droga que a gente é. Com toda a certeza
do mundo, você se esconde atrás da parede. E se esconderia atrás da
pedra, se coubesse. E a propósito, tenho que excluir a parede e a pedra
da minha lista de “posso gostar sem me preocupar”. Que saco, você me
rouba tudo. Já não bastava me roubar e agora rouba tudo que eu penso? Tô
esperando você me devolver, ou dá um jeito nisso. Porque eu cogitei a
hipótese de gostar de uma pedra. Tá vendo como você é mesmo dos piores? E
eu sei que sou a pessoa mais retardada do mundo por ainda não ter ido
embora. Mas é que você é tão ruim, que até te deixar é complicado.