Estou bem, só que não tenho apetite. […] Meus nervos costumam me
dominar, especialmente aos domingos; é quando me sinto péssima. A
atmosfera é sufocante e pesada como chumbo. Lá fora não se ouve um
pássaro, e um silêncio mortal e opressivo paira sobre a casa e se gruda
em mim, como se fosse me arrastar para as regiões mais profundas dos
abismos subterrâneos. Em tempos assim, papai, mamãe e Margot não têm a
menor importância para mim. Ando de cômodo em cômodo, subo e desço
escadas e me sinto um pássaro de asas cortadas, que fica se atirando
contra as barras da gaiola. “Me deixem sair para onde existem ar puro e
risos!”, grita uma voz dentro de mim. Nem mesmo me incomodo mais em
responder, só fico deitada no divã. O sono faz o silêncio e o medo
terrível irem embora mais depressa, ajuda a passar o tempo, já que é
impossível matá-lo.
O Diário de Anne Frank