
Querido amigo, Se não tenho falado com quase ninguém, isto não é um
“silêncio arrogante” mas, ao contrário, um silêncio bastante humilde, de
um sofredor envergonhado em revelar o quanto sofre. Um animal rasteja
para seu esconderijo quando está doente, e assim também faz la bête
philosophe. Quão raramente uma voz amiga chega até mim! Estou agora só,
absurdamente só. E no curso de minha guerra subversiva contra todo o
homem que até agora tem sido respeitado e amado, eu mesmo me tornei sem
perceber uma espécie de esconderijo, algo oculto, que você não poderá
mais achar mesmo se for até lá procurá-lo, mas é claro que ninguém o
faz. Confidencio que não é impossível que eu seja o principal filósofo
desta era, e mesmo um pouco mais que isso, algo decisivo e fatal
permanecendo entre dois milênios. Alguém nesta singular posição é
constantemente obrigado a pagar com uma crescente, ainda mais glacial e
aguda solidão. Nossos amados alemães! Não obstante eu esteja agora em
meu quadragésimo quinto ano e tenha publicado cerca de quinze livros,
eles não apresentaram nem ao menos uma crítica minimamente decente de
meus livros. Recorrem agora a expressões como “excêntrico”,
“patológico”, “mentalmente perturbado”. E por anos nenhuma palavra de
conforto, nem um pingo de sentimento humano, nem um alento de amor.
Friedrich Nietzsche