
Eu só queria que você falasse. Não é pedir demais, é? Falar é tão
simples. E acho que de tão simples, você desaprendeu como se faz. Bom, é
mais ou menos assim: você vem, inspira muito ar, expira um terço dele,
levanta a cabeça, estufa o peito, olha pra mim e fala. Só… fala. Te ver
desenhando com os dedos atrás da minha nuca é gostoso, mas não facilita
as coisas. Do que adianta você me encher de beijos e depois sair pela
porta em silêncio? Eu preciso ouvir a sua voz. Falando, gritando,
rasgando os ventos contrários, tanto faz. Eu só preciso ouvir, mesmo que
não mude nada. Fala alguma coisa que quebre essa Era Glacial entre nós
dois, por favor. Você apenas sorri enquanto eu tagarelo silábas
intermináveis sobre toda a minha vida, mesmo ela não sendo tão
interessante assim. O problema é que eu não me contento em saber apenas
como foi o seu dia ou o seu fim de semana na casa dos seus amigos. Eu
quero saber também como foi o seu verão passado, o ultimo natal na casa
dos seus pais, quando você ganhou o primeiro bichinho de estimação, onde
aprendeu a tocar guitarra e todas essas coisas memoráveis guardadas aí
dentro. Isso tudo sem parecer uma policial investigativa louca, é claro.
Eu só queria, na verdade, conhecer um pouco mais o teu passado pra me
estabilizar no teu presente. Mas você não fala. Nada. Nem uma
palavrinha. E eu sou obrigada a tentar decifrar os mil códigos que se
escondem por detrás do seu “bem que a gente poderia se ver de novo,
ein?”. O meu medo é não saber o que vem depois da interrogação. E você é
o meu maior questionamento sem resposta alguma. Acho que, exatamente
por isso, eu sempre acabo aceitando as suas suposições e silêncios. Eu
volto, mesmo que você não fale. E eu sempre volto justamente pra te
ouvir falar.